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O que seria de nós sem nossa história? É o que vivemos e construimos ao longo de nossas vidas que nos representa como pessoas, como indivíduos. São nossas escolhas e atitudes que dizem ao mundo quem somos. E, é na busca de nossos caminhos que vamos descobrindo nossos dons, aptidões e vamos construindo nossos sonhos que vão se tornando realidade, ou não, com o passar do tempo.

 

Sempre me senti atraída pela arte em várias de suas representações. E, ao mesmo tempo, sempre senti a presença do esporte em meu DNA, futebol, basquete, tênis...

Nesse, pedacinho da minha vida que vou contar aqui, vou falar um pouco da minha parte voltada para a arte. Claro que com a presença e fusão da arte e do esporte no meu cotidiano, fica difícil não citar um e outro em minhas palavras. Porém, neste momento, os meus momentos dedicados a arte tem mais relevância que minha inclinção esportiva.

 

A arte, de várias formas, sempre esteve presente em minha vida desde criança. Eu adorava desenhar e ficava horas copiando pessoas, o que mais gostava de “rabiscar” nos cantinhos dos meus cadernos e livros. Lembro que esta minha dedicação me rendeu o comentário pouco positivo de uma mãe de algum coleguinha meu que, em uma ocasião em que entreguei um trabalho de escola que consistia na ampliação da figura de D.Pedro I em cima do cavalo, afirmou que quem tinha feito o desenho era minha mãe, não eu. Por que? Porque na cabeça dela eu era muito pequena e não teria capacidade para fazer um desenho tão bom. Se não me engano, eu estava na antiga terceira série do primário quando aconteceu este episódio. Eu tinha a gravura até pouco tempo atrás que, infelizmente, acabou se perdendo em alguma mudança, provavelmente, e confesso que achava o desenho engraçado porque D. Pedro ficou meio “atarracado” e com as pernas curtas em sua imponente pose de imperador empunhando a espada em seu grito do Ypiranga. Isso, é essa imagem mesmo que você tá pensado, aquela que é reproduzida nas aulas de história. Aliás, foi nesses meus oito ou nove anos de idade que eu escrevi a minha primeira música, lembro dela até hoje e olha que eu acho que ela ficou bem bonitinha, inclusive tem um episódio bem engraçado envolvendo essa musiquinha. Mas vou deixar pra contar esta parte em outra oportunidade.

 

Eu tenho várias histórias, umas engraçadas, outras nem tanto, relacionadas aos meus entusiásticos e ecléticos “dons” artísticos. Mas como o assunto mais relevante no momento é contar como a arte de interpretar entrou na minha vida, será necessário um “pulo” razoavelmente longo na minha linha do tempo pra isto. Comecei a fazer teatro, efetivamente, um bom tempo depois. Naquela época eu já morava sozinha com minha irmã e trabalhava como instrutora de tênis no Clube do Flamengo. Verdade... uma vascaína trabalhando no arquirrival. Bem, brincadeiras à parte, sempre tive muita vontade de fazer teatro na adolescência, mas existiam poucos cursos disponíveis e eram bem longe da minha casa, o que acabou retardando um pouco o meu ingresso na, que viria a ser, uma das minhas profissões efetivas. Até que, por causa do meu trabalho, eu e minha irmã decidimos nos mudar da Ilha do Governador para o Leblon, pois ela, como shiatsuterapeuta também tinha clientes na Zona Sul e a mudança seria benéfica pras duas.

 

Foi bastante interessante o meu primeiro ano como aluna de teatro. Com a minha mudança para a Zona Sul do Rio, foi possível conciliar o meu trabalho como professora de tênis com as aulas no curso mais famoso da época, O Tablado.

 

Todos os anos, quando abriam as inscrições no Tablado, que é sediado na Lagoa até hoje, formava-se uma imensa fila de candidatos a alunos que, literalmente, rodava o quarteirão. Era muita gente mesmo. Eu sabia da história da famosa fila, mas mesmo assim, quando vi aquele monte de gente aglomerado na calçada em volta do teatro, quase dei meia volta e fui embora, primeiro porque imaginei que não ia ter a menor chance de conseguir uma vaga, e olha que eu cheguei lá, devia ser, umas seis horas da manhã em um dia de semana; segundo porque odeio filas! Mas, pensei: “já que tô aqui...”. Sério, parecia até a fila que eu enfrentei pra entrar no Rock in Rio no dia do Show do Guns N' Roses no ano anterior, no Maracanã. Bem, voltando a minha peregrinação pra tentar uma vaga no Tablado, foi por muito pouco que não desisti de tentar me inscrever. Felizmente eu persisti, porque depois de muitas horas na fila, acabei conseguindo uma das últimas vagas. Pensando bem, até que foi divertido, a galera da fila era bem interessante e fui fazendo amizade, batendo papo, e nem deu pra perceber o tempo passar. No entanto, toda essa “aventura” não foi o acontecimento mais interessante que ocorreu comigo naquele primeiro ano de Tablado. Muita história ainda vinha pela frente.

 

As aulas de teatro foram me encantando, e definitivamente, o “bichinho” do teatro me infectou pra sempre. Depois disso nunca mais parei, muito pelo contrário, fui agregando todo tipo de conhecimento que eu tivesse acesso e que pudesse me auxiliar nas atividades artísticas teatrais, tanto no palco quanto nos bastidores.  Eu adorava as aulas de expressão corporal do Jô (Johayne), que na época era assistente da Maria e que dá aulas no Tablado até hoje. Quando chegou lá pelo meio do ano, quando as montagens de final de ano começavam a ser programadas, descobri que o espetáculo que a minha turma iria encenar, seria uma comédia, se não me engano, de esquetes. O “problema”, é que eu tinha uma fixação por drama e uma vontade enorme de fazer algo do gênero que o fato da montagem final ser comédia me deixou meio chateada. Nada contra comédias, muito pelo contrário, adoro! Tanto que fiz várias nos anos posteriores, inclusive montadas pela minha própria Companhia de Teatro. Foi então que alguém comentou que uma das professoras da escola de teatro sempre encenava dramas no final de ano. Também, neste meio tempo, fiquei sabendo que havia a possibilidade de mudar de turma ao longo do ano, desde que a turma almejada tivesse vaga. Para isso era preciso conversar com a professora ou professor do horário pretendido e pedir a mudança. Foi o que fiz, fui até o teatro no dia em que a professora Dina Moscovici estava dando aula e pedi para ingressar na turma dela. Felizmente, ela concordou. Só que havia um pequeno detalhe, já estávamos no meio do ano e os outros alunos estavam se preparando para fazer, na semana seguinte, os testes pros papéis da peça que encerraria os trabalhos da escola no final do ano, ou seja, minhas chances eram mínimas de conseguir uma participação no espetáculo, tendo em vista que a professora acabara de me conhecer.

 

A semana seria de expectativas. Eu tinha acabado de mudar de turma, a professora não me conhecia e na aula seguinte aconteceriam os testes para as personagens da peça que entraria em cartaz no final do ano. Fui pra casa com o texto embaixo do braço pensado no que eu iria fazer diante de tal situação. Decidi então, começar... do começo. Só existia um primeiro passo a dar naquelas circunstâncias: fazer a leitura do texto pra conhecer a história e saber quais personagens se encaixariam no meu perfil pra tentar concorrer a um papel. E foi o que fiz.

 

O Espetáculo se chamava “Tragédia em Nova Iorque”, após a primeira leitura do texto as perspectivas não eram nada animadoras. Era uma peça de poucas personagens femininas, mais precisamente duas, a protagonista e uma amiga que falava praticamente nada. Pensei: - “Como vou conseguir mostrar meu trabalho com uma personagem que fala duas linhas? Será que a professora vai me achar pretenciosa se eu chegar lá falando que vou fazer o teste pra tentar a protagonista?” – Depois de divagar um pouco mais sobre o assunto, finalmente decidi que a melhor escolha a fazer era apresentar o texto da protagonista. Afinal, o máximo que poderia acontecer era o esperado, eu não ficar com o papel. Como a protagonista tinha muitas falas e alguns “bifes” (gíria do teatro que quer dizer fala longa), se eu me saísse bem, haveria a possibilidade de, pelo menos, conseguir entrar em cena com alguma “pontinha” (personagem pequena).

 

A semana foi de trabalho. A peça era de época e a personagem era de uma família judia bem rigorosa, e claro, não podia deixar de ter um amor proibido pra ela. O passo seguinte que eu teria que dar era, claro, pesquisar. Pois é, naquela época não existia Google... nem internet por aqui. A internet estava começando a “engatinhar”, e mesmo assim, nos meios científicos. Bom, isso não era problema pra mim, então, lá fui eu buscar informações através das ferramentas que eu tinha disponíveis: bibliotecas, locadoras de vídeo, sinagogas, etc. Na verdade, o processo de construção de uma personagem continua, basicamente, o mesmo, sendo que o Google “tomou” o lugar da biblioteca, com raríssimas exceções, e temos acesso a um sem número de informações sem nem precisar sair de casa. Entretanto, o processo precisa passar por uma das fases mais importantes, a de laboratório, que é quando buscamos observar e vivenciar situações que ajudarão a compor o papel e enriquecer as características da personagem.

 

Dando prosseguimento ao sistema que fui compondo instintivamente e, ao mesmo tempo, dentro de uma certa lógica que pra mim parecia ser o melhor caminho a seguir para continuar a dar vida ao papel, meus estudos continuaram intensos. Depois das pesquisas pude ter uma ideia de como uma personagem com aquele histórico e perfil se comportaria, que tipo de roupas ela vestiria, como seriam seus cabelos, etc. A fase que gosto de chamar de montagem estética. Depois de decidir as roupas já era possível trabalhar o corpo, a voz... Imaginando quais aspectos psicológicos, quais medos e desejos aquela pessoa, que até então era apenas palavras em papéis, teria ao ganhar vida em uma cena. Dentro de todas as circunstâncias que a envolvia, fui estudando as falas e construindo cada detalhe que eu achava serem essenciais para dar a carga dramática que aquela complexa personagem precisava para ter vida própria.

 

Foi uma semana intensa de estudos que tive que conciliar com minhas atividades diárias, como já citei, eu dava aulas de tênis de sete da manhã às seis da tarde, sendo que em alguns dias da semana eu “esticava” as aulas até às oito da noite em outro clube. Pois é...

 

E, chegou o dia do teste. Depois de colocar meu figurino, fazer maquiagem, cabelo (processo que me ajuda muito a “incorporar” a personagem antes de entrar em cena) e me concentrar, entrei em cena para fazer o teste. E, fiz. No final a professora me perguntou como eu tinha construído a personagem, conversamos um pouco, mas o resultado só sairia depois que todas as alunas e alunos da turma fizessem suas respectivas encenações. Então, fui pra casa.

 

A expectativa foi grande durante a semana seguinte. Eu sabia que tinha ido bem, mas também sabia que as chances eram poucas, tendo em vista que entrei na turma quando as audições já estavam começando. Até que, o grande dia chegou!

 

Cheguei cedo e fiquei no meu canto esperando o resto da turma chegar. Quando a professora Dina iniciou a aula, veio conversar com todos os alunos para comunicar como seria a distribuição de papéis após os testes da semana anterior. Claro que veio o friozinho na barriga, a ansiedade era grande enquanto ela falava com os rapazes sobre os papéis masculinos. Até que, chegou o momento de comunicar quem faria o papel da protagonista. E... eu passei no teste! Pra minha felicidade, ela gostou tanto da composição que fiz da personagem que decidiu que eu dividiria o papel com a outra aluna que também tinha apresentado o mesmo texto e que estava na turma desde o início do ano.

 

Nem preciso dizer que fiquei muito feliz, e claro, senti o peso da responsabilidade de fazer a protagonista de um espetáculo no meu primeiro ano de curso. Um peso positivo, porque me fazia sentir a necessidade de me dedicar ao máximo pra superar todas as expectativas da turma e da professora que tinha permitido que eu fizesse o teste mesmo eu tendo chegado no grupo naquele momento peculiar. Bem, no final do ano, acabei ficando sozinha com a personagem, pois a outra atriz teve problemas pessoais e precisou se ausentar das aulas.

 

A estreia foi exatamente como eu imaginei que seria, uma das melhores sensações que eu senti na vida, subir no palco com a plateia lotada e encenar um espetáculo. Isto era tudo o que eu queria pra minha vida dali pra frente.